
Criado em 2022 como um aplicativo de relacionamento voltado exclusivamente para pessoas negras, o Denga Love agora quer levar essa visão para outros mercados. “Eu quero ser o WeChat preto, não mais o Tinder preto”, conta Fillipe Dornelas, fundador e CEO da plataforma, em entrevista exclusiva ao Startups.
Para isso, o Denga está com uma rodada de investimentos aberta, com o objetivo de levantar cerca de R$ 1,5 milhão para acelerar os planos de expansão. A ideia é aumentar a presença do app de namoro nos Estados Unidos – maior mercado deste segmento, segundo Fillipe. E paralelamente, transformar o Denga em um hub de conexão para a comunidade negra. Não apenas para quem está solteiro, mas para quem quer eventos, networking, negócios e marcas que falem com a sua realidade.
“Eu quero que toda pessoa negra, quando tiver um celular, ela saiba: eu tenho que ter o meu aplicativo de e-mail, eu tenho que ter o do banco, eu tenho que ter o Denga”, diz o fundador.
Espaço seguro
A história do Dengacomeça antes da pandemia, quando Fillipe começou a amadurecer a ideia de criar um aplicativo para pessoas negras. “Estourou a pandemia, eu pensei: agora alguém vai fazer. Está todo mundo em casa, as pessoas querem conhecer alguém”, recorda. A solução, porém, nunca veio. Em 2022, ele começou a programar a plataforma.
O gatilho foi pessoal: ao voltar para os aplicativos de relacionamento depois de um término, ele se deparou com a mesma realidade de sempre. “Eu precisava me explicar, precisar me adequar a uma rotina que não era minimamente agradável para pessoas negras”, diz. Em outubro daquele ano, o Dengafoi ao ar. Nas primeiras horas, 10 mil pessoas já haviam se cadastrado.
O lançamento foi planejado com zero orçamento de marketing. A equipe acionou amigos influenciadores e combinou uma movimentação coordenada nas redes sociais. Um dia antes do lançamento, um amigo jogou no Twitter (atual X) a pergunta: “Aonde estão as pessoas negras nos aplicativos de relacionamento?” No dia seguinte, o Denga entrou no ar respondendo à provocação.
Hoje, o Denga Love já atingiu a marca de quase 400 mil contas cadastradas e está presente em cerca de 50 países. Mais de 90%, porém, ainda estão no Brasil, em especial nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador e Recife.
O faturamento anual está na casa de R$ 1,5 milhão, 100% sustentado por assinaturas do plano premium. A modalidade permite, por exemplo, que os usuários ativem filtros relacionados às suas preferências (como distância, forma de relacionamento, dieta vegetariana, entre outros).
A taxa de conversão para o plano pago está em torno de 14%, dentro da média do setor, que oscila entre 9% e 15%, segundo Fillipe. O app também já atingiu o breakeven e possui fluxo de caixa positivo, superando algumas dificuldades que não haviam sido previstas inicialmente.
Criado para ser um espaço seguro para pessoas negras que estão em busca de um relacionamento, o Denga já chegou a sofrer ataques coordenados de indivíduos que criavam perfis falsos com fotos ofensivas. “Eu tive que botar uma IA para detectar quando era foto de gente ou de qualquer outra coisa”, conta o fundador. O custo extra, que não estava no plano, virou rotina. “São coisas que a gente precisa fazer que, mesmo o Denga existindo, mesmo sendo um espaço pra mostrar que eu só quero um lugar seguro, a gente tem que botar os guardrails para poder funcionar normal.”
O esforço, porém, tem se traduzido em resultados concretos. O Denga já contabiliza mais de 50 crianças nascidas de casais que se conheceram na plataforma. Fillipe conta que os próprios usuários mandam as fotos. “Quando recebi a primeira, eu lembro o que eu chorei. Eu falei: meu Deus, tá dando certo”, recorda. Na primeira semana após o lançamento, ele conta que já havia usuários desinstalando o app com a justificativa mais desejada: “Já encontrei alguém aqui.”
Crescimento além dos solteiros
Para Fillipe, o modelo de negócios do app envolve uma métrica de sucesso que pode parecer incoerente: fazer com que os usuários não precisem mais da plataforma, porque conseguiram encontrar o parceiro ou parceira de vida. Esse é um dos motivos que levaram o fundador a expandir para outras áreas além dos relacionamentos.
“Estamos caminhando para ser o lugar principal de conexão da nossa comunidade negra, onde mais do que relacionamentos, nós vamos ter eventos, networking, negócios, marcas afro-friendly”, explica Fillipe.
Quando investidores levantam a objeção do nicho, o fundador tem a resposta na ponta da língua. “Esse nicho são 120 milhões de brasileiros”, diz ele, referindo-se à população negra do país. “Tem mais negros do que não negros. Então esse nicho não é tão pequeno assim”.
Para ele, o Denga não é sobre militância, mas sobre atender a uma parcela da população que não encontrava em outros aplicativos acolhimento e, em muitos casos, respeito. “Os algoritmos reproduzem o comportamento social. Pessoas negras são as que menos têm oportunidade de relacionamento”, afirma Fillipe, acrescentando que gostaria que o Dengase tornasse desnecessário no futuro. “Quando todo mundo aprender a se respeitar, aí o Denga vai ser para todos”.
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