
*Por Marcella Calfi , gerente de marketing da Zoop
O primeiro dia do Web Summit Rio 2026 deixou claro que a discussão sobre inteligência artificial entrou em uma nova fase. Com expectativa de 40 mil participantes e mais de 1.500 startups presentes (recorde da edição), o evento consolidou sua posição como uma das principais vitrines de inovação da América Latina.
Para quem trabalha com tecnologia no dia a dia, essa virada de conversa faz todo sentido. A IA já está embarcada em produtos, processos e decisões. O que está em construção agora é a estrutura que vai permitir que ela opere com escala, confiança e responsabilidade.
Três momentos do primeiro dia ajudam a entender esse movimento.
Infraestrutura como estratégia
O anúncio do Rio AI City, projeto da Prefeitura do Rio em parceria com a Elea Data Centers, trouxe ao palco algo que raramente entra nas apresentações de IA: a camada física que sustenta tudo. Com capacidade projetada de até 3,2 gigawatts, uso de energia renovável e um investimento total de US$ 10 bilhões, com uma primeira tranche de US$ 500 milhões já transferida para o Brasil.
E o gesto foi além do anúncio: a parceria foi formalizada com a assinatura do contrato ao vivo, no palco do Web Summit, um sinal de que desta vez o compromisso não ficará no campo da intenção. A construção dessa base física não é um detalhe logístico, é o que torna o desenvolvimento da IA em escala viável e sustentável.
Isso importa. Modelos generativos, agentes autônomos e aplicações em tempo real dependem de data centers, conectividade, energia e integração de sistemas. Sem essa base, a capacidade de inovar fica dependente de infraestrutura externa. O Rio AI City é, antes de tudo, uma aposta na soberania digital do Brasil.
A PrefeRio, também apresentada no evento, conectou essa ambição ao cotidiano. A iniciativa usa dados públicos, IA e WhatsApp para acionar cidadãos de forma proativa, como no caso de uma mãe informada sobre o direito a um benefício social antes mesmo de precisar buscá-lo. É um exemplo simples e preciso do que a tecnologia pode fazer quando bem aplicada: reduzir fricção, antecipar necessidades e chegar a quem mais precisa.
Regulação como parte do produto
Luana Lopes Lara, cofundadora da Kalshi, trouxe ao debate uma tensão que quem trabalha com inovação conhece bem: produtos digitais surgem antes que a regulação consiga nomeá-los. A Kalshi opera mercados de previsão, uma categoria que combina finanças, comportamento e tecnologia de formas que os marcos regulatórios ainda estão aprendendo a enquadrar.
O argumento central de Luana não foi uma defesa da empresa, mas uma leitura sobre incentivos. Novos modelos de negócio precisam demonstrar não só que funcionam, mas que são seguros, legítimos e sustentáveis. Inovar, nesse contexto, exige diálogo com reguladores, estrutura de compliance e compromisso com a proteção dos usuários. A tecnologia abre caminhos e a governança garante que eles sejam percorridos de forma responsável.
Confiança como ativo
A conversa entre Lázaro Ramos e Natuza Nery foi o contraponto mais importante do dia. Ao relatar que sua imagem foi usada indevidamente em um anúncio falso, o ator colocou na mesa uma questão que vai muito além do mundo artístico. Em um ambiente de deepfakes e identidades sintéticas, a confi ança passa a ser uma parte da infraestrutura.
A pergunta “quem é dono do meu rosto?” antecipa discussões que vão atravessar marcas, plataformas, instituições financeiras e qualquer negócio cuja relação com o público dependa de autenticidade. Isso não é argumento contra a IA, mas sim um argumento a favor de sua aplicação responsável.
Lázaro também apontou riscos reais de vieses raciais e de gênero em sistemas de reconhecimento e geração de conteúdo. São problemas que a indústria leva a sério e que exigem diversidade nas equipes, cuidado na curadoria dos dados e mecanismos de auditoria contínua.
O que fica
Para empresas que já operam com IA no centro da sua estratégia, esse debate não é abstrato. É a agenda do presente. A tecnologia tem capacidade real de transformar serviços, reduzir desigualdades e criar valor de formas que antes não eram possíveis. Mas o seu potencial só se realiza plenamente quando é exercido com responsabilidade, atenção à origem dos dados, aos impactos sobre as pessoas e à construção de relações que resistam ao tempo.
A fase do encantamento está ficando para trás. A inteligência artificial já é uma ferramenta fundamental para empresas que querem operar com escala, relevância e impacto real. O que o Web Summit Rio deixou claro é que o próximo nível exige mais do que adoção. Exige que confiabilidade com escalabilidade andem juntos, porque um sem o outro não se sustenta.
O post Web Summit Rio 2026: o que a abertura do evento revelou sobre a próxima fase da IA apareceu primeiro em Startups.