
O medo de que a inteligência artificial elimine empregos em massa domina parte das discussões sobre o futuro do trabalho. No Brasil, porém, a tecnologia deve chegar primeiro para preencher lacunas – e não necessariamente para substituir trabalhadores. Pelo menos, essa é a visão de Gabriel Farme, partner da Graphene Ventures, gestora de venture capital fundada no Vale do Silício.
“Ainda temos muita ineficiência no país. Por isso, acredito que a IA virá primeiro para potencializar pessoas a criar soluções e preencher esses gaps, antes de deslocar empregos”, afirmou Gabriel durante painel no Web Summit Rio 2026.
Segundo o executivo, em mercados mais desenvolvidos, como o norte-americano, a discussão já gira em torno de qual parcela dos empregos será substituída pela IA. No Brasil, porém, esse cenário ainda deve levar mais tempo para se concretizar. Antes disso, o país precisa atravessar uma etapa anterior: usar a tecnologia para resolver gargalos históricos e aumentar a eficiência em diferentes setores.
O paradoxo dos desenvolvedores
Para ilustrar a tese, Gabriel citou o impacto da IA sobre os desenvolvedores de software. Segundo o executivo, a expectativa inicial era de que a automação de tarefas de programação reduziria a demanda por esses profissionais. Na prática, porém, o movimento observado tem sido o contrário.
A população global de desenvolvedores ultrapassou 47 milhões no início de 2025 — um crescimento de 51% em três anos, segundo dados da SlashData. Enquanto a base de devs amadores recuou de 12,1 milhões para 10,7 milhões entre 2024 e 2025, o número de desenvolvedores profissionais cresceu de 30,9 milhões para 36,5 milhões no mesmo período, indicando um movimento de profissionalização do setor.
Embora a SlashData não atribua esse avanço diretamente à IA, a relação é vista como natural pelo executivo, diante do aumento da demanda por software e da democratização de ferramentas impulsionadas pela tecnologia. O movimento reduz a barreira técnica para a criação de produtos digitais e amplia a entrada de novos profissionais no setor.
“É curioso. Imaginávamos que haveria menos programadores [à medida que surgissem ferramentas capazes de criar produtos sem conhecimento técnico ou necessidade de desenvolvedores]. Mas o número de desenvolvedores só aumentou”, disse Gabriel. “Agora todo mundo pode ser programador. A IA está permitindo que mais pessoas criem empresas e, com isso, a demanda por profissionais também cresce.”
O cenário, porém, não é uniforme. Um estudo do Banco Mundial (2025) analisou dados em tempo real de vagas de emprego nos Estados Unidos e identificou queda média de 12% nas ocupações com maior potencial de substituição por IA entre o fim de 2022 e junho de 2025. No primeiro ano após o lançamento do ChatGPT, a retração era de 6%; no terceiro, chegou a 18%. A pesquisa revela que as áreas mais afetadas foram apoio administrativo (40%) e serviços profissionais (30%).
Empresas de uma pessoa só
Enquanto Gabriel Farme destacou o potencial da IA para preencher lacunas, Gustavo Ahrends, general partner da Norte Ventures, direcionou a discussão para o impacto da tecnologia sobre as estruturas corporativas à medida que ela amadurece.
Ele observa que grandes empresas já estão reduzindo equipes, e a tendência é que novos sistemas operacionais baseados em IA tornem viável uma empresa inteira gerida por uma única pessoa. “Já está acontecendo, e a tendência é que grandes empresas sigam reduzindo suas equipes”, disse. “Um fundador, um funcionário, milhares de dólares, sozinho.”
No início do ano, a plataforma de telemedicina Medvi chamou atenção do mercado ao projetar US$ 1,8 bilhão em receita com apenas um funcionário. Fundada por Matthew Gallagher, a startup oferece tratamentos com medicamentos GLP-1 para perda de peso e opera com uma estrutura amplamente automatizada por IA, usada em áreas como atendimento, marketing e gestão. A companhia se apresenta como a empresa de crescimento mais rápido da história e a primeira a alcançar US$ 1 bilhão em receita operando com apenas uma pessoa.
Quem ganha e quem muda com a IA
Durante o Web Summit Rio 2026, Santiago Fossatti, partner da Kaszek, reforçou a visão de que a IA atua como uma força democratizante. Segundo ele, o mesmo movimento que ampliou o acesso ao empreendedorismo com a popularização da internet começa a se repetir agora no campo técnico.
“Com a inteligência artificial, jovens em todo o mundo podem se conectar com os melhores empreendedores do mundo e alcançar o nível técnico necessário para lançar uma empresa sem precisar de muito capital. Veremos uma explosão de trabalho autônomo criando valor em escala”, afirmou.
Questionado sobre os setores mais propensos a uma transformação profunda impulsionada pela IA, Santiago destacou a gestão de patrimônio e investimentos. Historicamente restrito a pessoas com capital suficiente para montar um family office ou contratar grandes instituições financeiras, o segmento tende a se tornar mais acessível com a popularização de assistentes financeiros baseados em IA. Na visão do executivo, qualquer pessoa poderá acessar, pelo celular, serviços de orientação financeira antes disponíveis apenas para clientes de alta renda.
Outro setor citado foi a saúde. Santiago apontou o avanço de laudos gerados por IA e de sistemas de cuidado preditivo mais baratos como fatores capazes de ampliar o acesso a exames e diagnósticos para populações hoje desassistidas.
O mercado jurídico também deve passar por mudanças relevantes, segundo o investidor. Ferramentas capazes de interpretar leis, criar contratos e analisar documentos de forma automatizada devem aumentar a eficiência dos advogados e ampliar o acesso a serviços que hoje dependem de honorários elevados.
O post “IA vai preencher lacunas antes de tirar empregos”, diz sócio da Graphene apareceu primeiro em Startups.
