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Rodrigo Bernardinelli, CEO e cofundador da Digibee, do Peter Kreslins, CTO cofundador da Digebee. Fotos: Divulgação e Celso Doni

Há dois anos, tudo mudou para a Digibee, plataforma de integrações inteligentes, depois do aporte que trouxe para dentro de casa pesos pesados como Goldman Sachs, Softbank e Vivo Ventures. Foram mais de R$ 400 milhões captados em rodadas de investimento – R$ 300 milhões apenas na Série B -, que colocaram a empresa em outro patamar. Mas o aporte foi só uma parte da história. O que realmente redesenhou a trajetória da startup foi a ascensão da inteligência artificial (IA) e, com ela, a explosão dos agentes de IA.

“O mundo mudou muito. Tivemos a pandemia, os mercados secaram de repente e, então, veio a IA e alterou tudo. Foi ‘só’ isso que mudou”, brinca Rodrigo Bernardinelli, CEO e confundador da Digibee, ao resumir a intensidade dos últimos anos. O cenário traz uma constatação: enquanto investidores recuavam e empresas cortavam custos, a inteligência artificial se impôs como a grande disrupção. E, paradoxalmente, abriu mais oportunidades do que barreiras.

A companhia, nascida em 2017 para simplificar integrações em setores complexos como financeiro, varejo e telecomunicações, hoje se vê diante de um novo dilema. Como garantir governança em um mundo em que sistemas não apenas executam tarefas, mas tomam decisões? “Antes, gerenciávamos humanos. Agora, precisamos aprender a gerenciar agentes”, diz o executivo.

O imprevisível no coração dos negócios

Por trás da fala bem-humorada, existe uma preocupação séria. Para Peter Kreslins, CTO e cofundador da Digibee, a transformação que vivemos não é incremental, mas uma reescrita das regras do jogo. “O software sempre foi determinístico. Você sabia exatamente o que esperar. Agora, entramos no terreno do não determinístico, e eu não posso jogar moeda nos negócios”, constata.

Essa imprevisibilidade é a nova fronteira do risco. Modelos generativos e agentes autônomos oferecem respostas brilhantes, mas também erram de forma criativa, e às vezes perigosa. Em grande escala, esse comportamento pode abalar não só processos, mas reputações inteiras.

É nesse ponto que a Digibee quer se posicionar. A empresa não quer ser vista como uma simples plataforma de integração, mas como construtora de guardrails, fronteiras invisíveis que impedem que a inteligência artificial saia do trilho. “IA é linda, mas o mundo real ainda precisa ser resolvido”, afirma Bernardinelli.

A aposta é transformar a experiência adquirida no setor financeiro, historicamente mais rígido, em uma vantagem competitiva para outros mercados. O objetivo, portanto, é garantir camadas de governança que permitam às empresas experimentarem agentes autônomos sem renunciar à segurança e rastreabilidade.

Novas regras do jogo da IA

Nesse novo contexto dos agentes, os executivos não se furtam a cutucar vespeiros. Bernardinelli fala em “morte do ERP” não como substituição de software, mas como mudança social. Para eles, a forma de operar um sistema nunca mais será a mesma. Em vez de saber operar um CRM ou um ERP, será possível simplesmente pedir a uma IA para ajudar a fazer aquela tarefa. Kreslins vai além: aposta que o software como serviço (SaaS), limitado a registros e transações, também vive seus últimos dias de glória da forma como é hoje.

Essa visão não significa, no entanto, decretar o fim do software, mas reconhecer uma mudança de paradigma. Para Kreslins, a inteligência artificial inaugura uma nova camada de abstração sobre os sistemas. “A engenharia não desaparece. O que muda é a forma de conduzir.”

Essa transformação também atinge em cheio os profissionais de tecnologia. O impacto sobre os desenvolvedores juniores, por exemplo, já é visível. “O júnior agora é a própria IA”, dispara o CTO. O papel de iniciantes se desloca nesse cenário. Em vez de escrever linhas de código básicas, precisarão aprender a aprender, explorando a IA como ferramenta de experimentação e aprendizado.

Entre o hype e o ROI

Apesar do otimismo, a Digibee reconhece que há um vácuo entre o hype e a realidade quando o assunto é IA. Muitos projetos simplesmente não avançam por falta de retorno mensurável, como mostra o estudo Antes da TI, a Estratégia 2025, do IT Forum. Ainda assim, Bernardinelli enxerga um oceano azul à frente. “Nunca vi tanto apetite. O desafio não é falta de demanda, mas se posicionar no meio de tanta gente boa fazendo tanta coisa interessante.”

Na esteira do mercado, a Digibee lançou recentemente o Digibee AI para evangelizar e acelerar a construção de soluções em cima da sua infraestrutura. Casos como a rede bancária da Colômbia, que já roda sobre a plataforma, comprovam que há espaço para aplicações críticas nascerem ali.

Bernardinelli fecha com uma provocação: “Estamos diante de uma rescrita do que fazemos. O futuro não está dado, mas a oportunidade é maior do que nunca. Cabe a nós garantir que esses agentes que estão surgindo cresçam com governança desde o primeiro dia”, finaliza.

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