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Corporate venture capital não deve ser confundido com M&A, diz ABCVC

By março 5th, 2026No Comments
Leo Monte, presidente da ABCVC (Foto: divulgação)
Leo Monte, presidente da ABCVC (Foto: divulgação)

Consolidado no exterior, o modelo de corporate venture capital (CVC) está amadurecendo no Brasil. Após o pico registrado em 2021 e 2022, o setor entrou em um ciclo de retração, em linha com o movimento observado no venture capital tradicional. A retomada, no entanto, depende de um melhor alinhamento de expectativas entre corporações, fundos e startups.

Para Leonardo Monte, presidente da Associação Brasileira de Corporate Venture Capital (ABCVC), é importante que todos esses agentes tenham em mente qual o objetivo do programa. Na maior parte das vezes, essas iniciativas existem para ajudar a resolver desafios corporativos e acelerar a inovação, não gerar retorno financeiro.

“O CVC no Brasil é muito recente e ainda existe uma pressão grande por resultados de curto prazo, quando, na prática, essa é uma estratégia de longo prazo, que exige tempo, paciência e transformação interna nas empresas”, afirma.

Ele cita como exemplo uma confusão ainda comum no mercado brasileiro sobre o lugar ocupado pelas corporações na governança das startups. “Existe uma confusão que a gente vem tentando combater: CVC não é M&A. Se a empresa quer comprar, ela faz M&A. O CVC é outra lógica”, afirma. Nesse modelo, segundo Leo, o mais indicado é que a corporação construa participações minoritárias ao longo do tempo, acompanhe o desenvolvimento da startup e, somente se fizer sentido estratégico, evolua para uma aquisição no futuro.

Liliam Carrete, professora de Finanças da FIA/USP, acrescenta que a participação minoritária da companhia na startup é importante para garantir que essa empresa tenha liberdade para inovar e acelerar. O que, no fim das contas, é o objetivo do investimento.

“Isso é fundamental, porque a corporação vai conseguir tirar o valor estratégico desse investimento, mas não vai direcionar a startup exclusivamente pelos interesses dela”, destaca.

Leo acrescenta ainda que um dos principais fatores de fracasso de programas corporativos no Brasil não é a falta de retorno financeiro, mas a ausência de governança e de clareza estratégica. “Não basta dizer que faz open innovation, aceleração ou investimento. É preciso definir o que a empresa quer, que problemas pretende resolver e como a startup vai se conectar com a operação”, diz.

Segundo ele, muitas empresas também subestimam a complexidade de operar investimentos de risco. Por isso, parcerias com gestoras especializadas ou a formação de times internos capacitados são caminhos naturais para estruturar programas mais robustos.

“Startup chega com a corda no pescoço”

Do lado das startups, Lilian acredita que também há um trabalho educativo a se fazer. Um dos problemas, para a professora, é a falta de disciplinas de empreendedorismo nas universidades.

“A startup em geral chega no investidor com a corda no pescoço. Se não conseguir investimento em dois meses, não vai sobreviver. A gente tem muito a evoluir. As startups precisam ser sofisticadas o suficiente para decidir se faz sentido receber investimentos de CVC, de VC ou dos dois ao mesmo tempo. Esse coinvestimento pode ser muito saudável”, aponta.

Para a professora, é importante que as startups também aprendam a diferenciar os papéis de cada tipo de investidor. Receber um investimento de CVC pode significar acesso direto a clientes, validação de produto, testes em ambiente real e apoio estratégico. “Em especial para startups B2B, isso pode ser decisivo”, diz Liliam.

Nesse contexto, a ABCVC e a FIA/USP estão estruturando uma parceria voltada à formação de executivos e ao fomento de pesquisas sobre o mercado brasileiro de CVC. A proposta é oferecer um programa executivo que simule, na prática, a experiência de estruturar e operar um braço de corporate venture capital — desde a definição da tese até a criação de valor e a saída do investimento.

“A ideia é ajudar empresas que estão começando ou que já operam CVC a entender melhores práticas e a tomar decisões mais qualificadas”, afirma Lilian. Segundo Leo, a iniciativa também inclui o desenvolvimento de estudos e relatórios com maior neutralidade e profundidade sobre o setor. “O mercado precisa de dados confiáveis para evoluir. Nosso papel é ajudar a criar esse ambiente de confiança e aprendizado”, conclui.

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