
Por Rodrigo Fiani
Ao observar a evolução da indústria de tecnologia no Brasil nas últimas décadas, vejo uma trajetória marcada pela busca da excelência na manufatura. Foi um período definido pela conquista da qualidade tangível: o melhor componente, a maior durabilidade, a engenharia de precisão. Essa busca construiu a base do que somos. No entanto, a lição que o mercado atual nos impõe é que a “caixa” não pode mais ser encarada como o fim da transação, mas sim o início de um relacionamento.
Não estamos vivendo o fim do hardware, mas a sua maior ressignificação e evolução. Acredito que os próximos 30 anos não serão sobre escolher entre produto ou serviço, mas sobre como integrar ambos de forma indissociável. É o conceito de “Servitização”, onde o equipamento de ponta se torna o veículo para entregar experiências contínuas, eficiência e cuidado.
No complexo cenário de negócios brasileiro, essa mudança de mentalidade é vital. Gestores de grandes infraestruturas, sejam elas hospitalares, hoteleiras ou corporativas, continuam precisando de equipamentos robustos e confiáveis. A diferença é que, hoje, eles esperam que esse equipamento “fale”, “aprenda” e “evolua”.
O produto estático, por melhor que seja, deprecia. O produto conectado, que embarca inteligência e serviço, valoriza.
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Veja o exemplo do setor de hospitalidade. Uma tela de alta definição no quarto de um hotel continua sendo um ativo físico indispensável, mas, quando integrada a uma plataforma de gestão na nuvem, ela deixa de ser apenas passivo tecnológico na parede para se tornar um concierge digital. Ela passa a ser a interface que acolhe o hóspede, que entende suas preferências e que orquestra o ambiente. O hardware ali é fundamental — sem uma boa tela, não há experiência — mas é a camada de serviço que transforma o objeto em hospitalidade.
Essa lógica se aplica com a mesma força à infraestrutura crítica. Um sistema de climatização empresarial não é mais apenas um conjunto de motores e dutos para resfriar o ar; ele deve ser uma ferramenta ativa de gestão energética. Ele precisa ter a inteligência para analisar dados, antecipar manutenções e reduzir custos operacionais (OPEX), algo precioso para a saúde financeira das empresas no Brasil.
Portanto, a tecnologia precisa dar um passo além da especificação técnica. No mundo B2B, a inovação real acontece quando o produto tem a capacidade de ser empático. É o que chamo de transformar a infraestrutura em uma rede de cuidado invisível. É a tecnologia que, silenciosamente, ajusta o ambiente para o bem-estar das pessoas, antecipando necessidades antes que se tornem problemas.
Minha visão para as próximas décadas é clara: a excelência na produção de hardware continuará sendo o alicerce inegociável — afinal, não se constrói um serviço premium sobre uma base frágil. Mas a liderança de mercado pertencerá a quem entender que o produto é o palco, e o serviço é o show.
O Brasil não aceita soluções pela metade. Para criar raízes e liderar aqui, é preciso ter a robustez da manufatura e a sensibilidade do serviço. O futuro da tecnologia não é descartar a “caixa”, mas garantir que, dentro dela, venha muito mais do que peças e fios: venha inteligência, parceria e uma experiência humana superior
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