Skip to main content
Negócios
Negócios | Foto: Startups

Por Renato Mendes, co-fundador da 4Equity Media Ventures

A aquisição da Bold Snacks pelo Grupo Ferrero foi rapidamente interpretada como uma entrada na categoria de proteínas da multinacional italiana. Faz sentido, afinal, o mercado de snacks proteicos cresce entre 15 e 20% ao ano globalmente, segundo Euromonitor, enquanto chocolate tradicional cresce entre 2 e 3%. A Ferrero está comprando participação em uma categoria de alto crescimento, o que eleva os múltiplos de valuation de todo o portfólio. A lógica econômica é direta. Empresas que crescem 15% ao ano valem mais que empresas que crescem 3%, mesmo quando o segundo negócio é mais lucrativo no curto prazo.

Há, no entanto, camadas adicionais neste movimento que vão além da pura lógica de categoria: captura de frequência de consumo, ganho de força de distribuição no varejo, hedge contra dependência de açúcar e acesso a dados de comportamento do consumidor. Vamos analisar uma a uma.

Categorias de alto crescimento não apenas geram receita mais rápida, mas também alteram a dinâmica de consumo. O portfólio Ferrero é construído em torno de ocasiões específicas. Ferrero Rocher para presentes, Kinder para sobremesa infantil, Nutella para café da manhã indulgente. São produtos de momentos, não de rotina diária.

A Bold ocupa outro espaço. Está presente no dia a dia, no lanche da tarde, no pós-treino, no café da manhã apressado. Frequência de consumo é diária ou semanal, não ocasional. São dezenas de vezes mais oportunidades de venda por cliente. Quanto maior o número de ocasiões, maior o valor gerado ao longo do tempo. Categorias de crescimento rápido frequentemente carregam essa característica: alta recorrência de compra.

Há também uma expansão de território no ponto de venda. O Grupo Ferrero construiu décadas de relacionamento com o varejo e domina a gôndola de impulso, com presença garantida em checkout e displays de destaque. A Bold, mesmo gerando a maior parte do faturamento via trade, ainda enfrenta limitações de escala e poder de negociação. Ao integrar a operação da Ferrero, ganha distribuição imediata, posicionamento privilegiado em gôndola e capacidade de negociação que levaria anos para construir sozinha. Do outro lado, a Ferrero adiciona presença no corredor de snacks funcionais, onde ainda não tinha credibilidade para competir.

O movimento ganha ainda mais relevância quando observado à luz de uma mudança estrutural no consumo global. Sessenta países já adotaram impostos sobre açúcar, segundo levantamento da OMS de 2024. A Rotulagem frontal é obrigatória no Brasil desde 2022, conforme Anvisa. O Consumo de refrigerante caiu entre 20 e 30% na última década, de acordo com dados da Euromonitor. A Geração Z consome 40% menos açúcar que Millennials, aponta estudo da Mintel de 2025. Portfólios concentrados em indulgência passam a enfrentar limitações claras de crescimento. Se 100% do seu faturamento depende de açúcar e cacau, você não está crescendo. Você está administrando um declínio lento. Comprar ativos em categorias funcionais não é apenas oportunismo. É hedge estratégico.

Diante desse cenário, a decisão de adquirir, e não construir, torna-se lógica. Criar uma marca com posicionamento saudável dentro de uma empresa historicamente associada à indulgência é um processo lento e pouco crível para o consumidor. Falta autenticidade. Ao adquirir a Bold, o Grupo Ferrero incorpora uma marca já validada, com identidade própria e conexão estabelecida com seu público. Trata-se de uma compra de tempo e legitimidade.

Existe ainda um componente menos visível, mas igualmente relevante. O Grupo Ferrerosempre operou com dados agregados de mercado, sem acesso direto ao consumidor final. A Bold construiu proximidade com parte significativa de sua base através do digital, acumulando dados de comportamento, recorrência e jornada de compra. Isso transforma a marca em uma fonte de aprendizado contínuo sobre um perfil de consumidor que o Grupo Ferrero não alcançava.

A equação estratégica se torna clara. A Bold ganha escala e capacidade de expansão. O Grupo Ferrero passa a acessar uma categoria de crescimento acelerado, frequência de consumo elevada, dados de comportamento e presença cotidiana.

O risco agora é operacional. Bold funciona porque é rápida, autêntica e próxima do consumidor. Se o Grupo Ferrerotentar integrar tudo em sistemas legados e burocratizar decisões, dilui exatamente o que comprou. O movimento correto é tratá-la como unidade de negócio independente, com P&L próprio e autonomia de execução.

No fim, a transação não representa apenas a entrada em uma nova categoria. Representa a reconfiguração de portfólio orientada por crescimento. Não se trata de um movimento isolado. A Nestlé vendeu marcas de água engarrafada nos EUA e comprou a Orgain, focada em proteína vegetal. A Unilever se desfez de seu portfólio global de chá e adquiriu a Liquid I.V., marca de hidratação funcional. A Danone reduziu exposição em laticínios tradicionais e dobrou aposta em probióticos.

O padrão é claro: grandes CPGs estão trocando ativos de baixo crescimento por ativos de alto crescimento, mesmo pagando múltiplos mais elevados. Porque a matemática mudou. Não importa mais apenas quanto você fatura hoje. Importa a que taxa você cresce. O Grupo Ferrero não comprou proteína. Comprou crescimento.

O post Por que a Ferrero comprou a Bold? Dica: não foi só sobre proteína apareceu primeiro em Startups.

Close Menu

Wow look at this!

This is an optional, highly
customizable off canvas area.

About Salient

The Castle
Unit 345
2500 Castle Dr
Manhattan, NY

T: +216 (0)40 3629 4753
E: hello@themenectar.com