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Uma pessoa segura uma lâmpada acesa, da qual emerge um holograma em forma de nuvem com padrões que lembram circuitos eletrônicos. O fundo é escuro, o que destaca os elementos brilhantes em azul e branco do holograma. (Seidor, nuvem, transforma)

Por Fabrizio Siqueira

A transformação digital tornou o mundo mais veloz, conectado e dependente. Plataformas de pagamento, comunicação e entretenimento passaram a sustentar a rotina de milhões de pessoas, e qualquer interrupção repentina revela o quanto nossas infraestruturas são concentradas e vulneráveis. Quando a nuvem para, não é apenas a tecnologia que falha, mas também a lógica de um modelo que ainda depende demais de poucos provedores globais. Essa constatação leva a uma pergunta essencial: qual é a sua segunda opção de nuvem?

Responder a essa questão é medir o grau de maturidade tecnológica de uma organização e, por extensão, de um país. Ter uma segunda nuvem não é redundância, mas estratégia. O relatório State of the Cloud 2024, da Flexera, aponta que 89% das organizações pesquisadas já utilizam múltiplas nuvens públicas, um percentual que cresceu em relação ao ano anterior. O Brasil segue a mesma tendência, impulsionado pela necessidade de resiliência, soberania e continuidade. Em um cenário em que nenhuma nuvem é perfeita em tudo, distribuir aplicações entre diferentes ambientes garante operação mesmo diante de falhas localizadas e permite otimizar custos, desempenho e segurança.

Essa diversificação, porém, tem um significado que vai além da eficiência técnica. Ela marca o início de uma nova etapa da transformação digital, em que infraestrutura, política pública e conhecimento passam a caminhar juntos. A resiliência que antes dependia apenas de data centers e servidores agora depende também de pessoas, instituições e políticas capazes de sustentar o futuro digital de um país.

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O conceito de soberania digital nasce dessa convergência. Ele representa a capacidade de uma nação de manter sob sua jurisdição não apenas os dados que produz, mas também as tecnologias que os processam e os profissionais que as operam. Essa soberania se expressa na criação de infraestruturas nacionais que asseguram autonomia operacional, na formação de especialistas locais e na definição de regras próprias de governança e transparência. Em vez de depender integralmente de estruturas externas, o país passa a controlar o ciclo completo da informação, da coleta ao processamento, da inteligência ao uso social dos dados.

Construir soberania exige mais do que infraestrutura. Exige conhecimento. Segundo estudo da Brasscom, entre 2019 e 2024 o setor de tecnologia da informação no Brasil demandou cerca de 665 mil profissionais, enquanto pouco menos de 465 mil foram formados no período. O déficit de talentos qualificados é um lembrete de que não existe independência tecnológica sem educação. Diversos programas de capacitação em computação em nuvem e inteligência artificial têm buscado reduzir essa lacuna, levando conhecimento técnico a regiões antes afastadas do mapa da inovação. Cada novo profissional formado amplia a capacidade do país de criar, operar e proteger sua própria nuvem.

A formação de especialistas é o que dá origem a um novo tipo de soberania, que vai além da posse física dos dados e envolve o domínio intelectual sobre a tecnologia. Um país soberano é aquele que não apenas armazena informações, mas que também entende, adapta e cria soluções com base nelas. Ao desenvolver modelos de inteligência artificial treinados com dados locais, as instituições deixam de ser simples usuárias e passam a definir o rumo da inovação.

A consolidação dessa infraestrutura precisa estar em harmonia com os desafios energéticos do nosso tempo. O White Paper de Data Centers publicado pela Anatel aponta que o consumo global dessas estruturas foi de 460 TWh em 2022 e pode chegar a até 1.050 TWh até 2026, impulsionado pelo avanço da inteligência artificial e da Internet das Coisas. O relatório PwC Cloud and AI Business Survey mostra que 82% das empresas de alto desempenho já mantêm a maior parte de seus dados na nuvem, o que aumenta a pressão por soluções mais limpas e eficientes.

Nesse cenário, o Brasil possui uma vantagem competitiva rara. Com cerca de 85% de sua matriz elétrica composta por fontes renováveis, o país reúne condições ideais para a criação de centros de dados sustentáveis e de alta densidade, capazes de suportar cargas computacionais crescentes com menor impacto ambiental.

A transição para uma economia digital de baixo carbono é inseparável da busca por soberania. A energia limpa que alimenta os data centers é a mesma que sustenta o desenvolvimento tecnológico nacional. A eficiência energética deixa de ser apenas um imperativo ambiental e se torna parte da equação estratégica da inovação. Ela conecta o avanço da inteligência artificial, a expansão da nuvem e a consolidação de uma economia digital mais equilibrada e descentralizada.

No centro dessa transformação está a confiança. A soberania digital não se resume à localização física dos dados, mas à garantia de que eles estão protegidos por leis e instituições nacionais. Em um contexto global em que legislações estrangeiras permitem o acesso remoto a informações corporativas e públicas, manter os dados sob jurisdição local é um ato de autonomia e segurança institucional. A confiança social nas soluções digitais depende da certeza de que o país controla as infraestruturas que movem sua própria informação.

O Brasil vive um momento decisivo. Ao mesmo tempo em que amplia a adoção de múltiplas nuvens para reduzir riscos e aumentar competitividade, fortalece as bases de sua infraestrutura soberana, garantindo que dados estratégicos, públicos e privados, permaneçam protegidos sob suas próprias leis. Essa combinação de diversidade tecnológica e autonomia nacional desenha o novo pacto digital brasileiro.

A pergunta “qual é a sua segunda opção de nuvem?” não é apenas uma provocação técnica. É uma reflexão sobre responsabilidade, independência e futuro. Significa perguntar quem realmente controla as engrenagens da inovação e de que forma cada decisão digital contribui para a segurança e o desenvolvimento do país. Ter uma segunda nuvem é assumir o próprio destino tecnológico. É garantir continuidade, autonomia e confiança, fundamentos que sustentam o futuro da inovação e do desenvolvimento nacional.

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