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Yunus quer acabar com dicotomia entre fazer o bem ou ganhar dinheiro

By março 12th, 2026No Comments
Os sócios da Yunus: Mila Ladeia, Glaziela Cavallaro e Francisco Vicente | Foto: Divulgação
Os sócios da Yunus: Mila Ladeia, Glaziela Cavallaro e Francisco Vicente | Foto: Divulgação

O economista Muhammad Yunus, de Bangladesh, ganhou o Nobel da Paz em 2006 por uma ideia simples e radical: emprestar dinheiro para quem os bancos ignoram. Quase duas décadas depois, a organização que leva seu nome no Brasil tenta provar que a mesma lógica funciona para empresas. E que um negócio pode, ao mesmo tempo, gerar lucro e mudar vidas.

A Yunus Negócios Sociais atua há mais de dez anos no Brasil e opera em quatro frentes: inovação com grandes corporações, desenvolvimento e aceleração de negócios sociais, articulação de ecossistemas e finanças de impacto.

O principal instrumento financeiro da organização é um FIDC (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios) voltado exclusivamente para negócios de impacto socioambiental. Desde sua criação, o fundo mobilizou cerca de R$ 30 milhões em 22 empresas de setores como educação profissionalizante, gestão de resíduos, reflorestamento, saúde e agronegócio.

“Nosso apoio financeiro para os negócios, em geral, acontece via dívida, em formatos diferentes. Mas a ideia é que seja um crédito paciente e assistido. O que isso quer dizer? Que são créditos mais alongados, que têm um prazo maior, e que junto disso vem um apoio não financeiro: treinamento, mentorias, conexões, o que for necessário para ajudar esses empreendedores a crescerem e impactarem mais vidas”, explica Mila Ladeia, sócia na Yunus.

Os empréstimos têm prazo de quatro a cinco anos e ticket entre R$ 500 mil e R$ 2 milhões. A estrutura do fundo é dividida em três cotas, desenhadas para perfis distintos de investidor.

A Cota Júnior, voltada a institutos e fundações, funciona como first loss e permite contrapartidas específicas. O Instituto Gerdau, por exemplo, exigiu que os recursos fossem direcionados a negócios do Sul do país.

A Cota Mezanino mira preservação de capital com retorno atrelado à inflação. É voltada, por exemplo, a family offices que querem dar os primeiros passos em investimento de impacto. Já a Cota Sênior oferece IPCA mais 5% para investidores dispostos a abrir mão de parte da remuneração em troca de impacto mensurável.

Empréstimo coletivo

Para negócios em estágios mais iniciais, a Yunus criou o Programa Zunne, iniciativa de empréstimo coletivo no formato semelhante ao crowdfunding. O ticket vai de R$ 100 mil a R$ 500 mil, com quatro anos de prazo e seis meses de carência. Na plataforma, qualquer investidor pode entrar a partir de R$ 100 e escolher exatamente para qual empresa quer direcionar o capital.

“No fundo, você nem sabe para onde o dinheiro está indo. Aqui você sabe exatamente onde coloca”, compara Mila. Em quatro edições, o programa já mobilizou mais de R$ 5 milhões em crédito paciente para 23 negócios nas duas regiões.

Perfil dos empreendedores é diferente

Embora o pipeline de empresas de impacto seja menor, principalmente considerando o tipo de impacto observado pela Yunus, Mila afirma que há características desses empreendedores que são mais positivas em relação a negócios tradicionais. Uma delas é a resiliência.

“Em um negócio tradicional, se a empresa não deu certo, o empreendedor parte para outra, muitas vezes em outro setor. O cara de impacto, não. Ele vai remodelar o negócio, vai buscar outros modelos, porque ele quer resolver aquele problema, ele vai encontrar um jeito de dar certo”, aponta.

Gerente de Inovação Socioambiental na Yunus, Bárbara Landeia pondera que também existem desafios na jornada desses empreendedores, que muitas vezes estão menos preparados do ponto de vista do negócio. A conexão profunda com a causa é o maior motor desses empreendedores, mas frequentemente eles precisam de apoio para aprender a gerir um negócio, estruturar finanças e se posicionar no mercado.

Outro gargalo é a dificuldade de equilibrar propósito e resultado financeiro. Mesmo entre quem não se posiciona como ONG — e a maioria não se posiciona —, é comum a dúvida sobre o que é um lucro justo, um crescimento saudável, uma meta razoável. “A gente ainda vive essa dicotomia entre fazer o bem ou ganhar dinheiro. É uma balança que eles precisam equilibrar internamente”, avalia Bárbara.

Aceleração

Para ajudar nesses desafios, a Yunustem apostado em acelerações temáticas, focadas em áreas específicas do negócio, como vendas, finanças, governança ou medição de impacto, em vez dos modelos generalistas mais comuns no mercado. No Regenera, por exemplo, programa desenvolvido em parceria com o Sebrae do Rio Grande do Norte, a equipe identificou que os negócios participantes tinham mais dificuldade em gestão financeira e acesso a mercado. Com isso, os esforços foram direcionados a essas frentes.

Uma avaliação conduzida por empresa externa ao fim do programa registrou aumento médio de 75% no faturamento das empresas participantes. Antes, a Yunusjá havia testado o modelo com o TikTok em uma aceleração voltada exclusivamente para comunicação e posicionamento de marca. “A gente junta especialistas, junta mentores, faz tipo um banho de loja só dentro desse tema”, descreve Bárbara.

Sustentabilidade como condição de futuro

Para Bárbara, a questão do impacto já passou do campo do posicionamento de marca para o da sobrevivência. No cenário atual, que ela descreve como de “policrise” — o empilhamento da crise climática com a crise social e os conflitos geopolíticos —, empresas orientadas estrategicamente para o impacto socioambiental estão simplesmente mais preparadas para o mundo que está emergindo. “É quase uma condição sine qua non de perenidade”, afirma.

Na visão da Yunus, esses negócios são mais resilientes não porque fazem o bem, mas porque estão direcionados a objetivos que vão além da acumulação — e esses objetivos tendem a ganhar peso crescente à medida que as crises se aprofundam.

Esse argumento ganha corpo quando se olha para a regulação. No Brasil, o novo padrão contábil que começa a valer para empresas de capital aberto vai obrigar a prestação de contas sobre impactos socioambientais de toda a cadeia de valor, incluindo fornecedores e parceiros. Na prática, isso significa que negócios B2B que já trabalham com métricas de impacto e boas práticas socioambientais saem na frente, tornando-se mais atrativos para grandes corporações.

Na ponta do consumo, a pressão vem de outro lado, com proporção cada vez maior de consumidores que preferem marcas com origem sustentável. Em especial, as gerações mais jovens.

Do lado dos investidores, Mila ressalta que a crescente atenção ao investimento de impacto passa também por uma pergunta mais básica: o que meu dinheiro está financiando? “Meu dinheiro vai financiar uma empresa que tem na sua cadeia de valor trabalho análogo à escravidão, ou uma que traz empregos verdes e dignos?”, questiona.

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