
Robson Amorim passou boa parte da adolescência viajando para competições de robótica. Foi nesse circuito de olimpíadas regionais, nacionais e mundiais que conheceu os futuros cofundadores da BeConfident – e encontrou também um senso de direção. “Era uma coisa que eu gostava de fazer e onde conseguia me destacar”, conta.
O grupo, formado por jovens da periferia de São Paulo, acumulou conquistas em torneios internacionais antes mesmo de pensar em criar uma empresa. Um dos cofundadores até chegou a integrar a primeira equipe brasileira campeã mundial de robótica. Apesar do currículo técnico forte, havia uma barreira em comum entre eles: o inglês.
A dificuldade se tornou evidente quando Robson decidiu aplicar para universidades nos Estados Unidos. Na primeira tentativa, foi rejeitado. “Não foi por falta de capacidade técnica, mas porque eu não dominava o idioma”, afirma. O cenário mudou depois de meses de estudo intenso, até conseguir ingressar em uma universidade na Califórnia, onde cursou ciência da computação.
Hoje, à frente da BeConfident, ele divide a rotina entre o Brasil e a Califórnia. Recentemente, passou algumas semanas na China em uma imersão no mercado asiático – região que se tornou uma das principais apostas da startup para os próximos anos.
Fundada em 2023, a startup é considerada uma das startups mais promissoras no ensino de idiomas com IA multimodal integrada ao WhatsApp e ao próprio aplicativo. A empresa já soma mais de 190 mil clientes pagantes em mais de 100 países, ultrapassou R$ 80 milhões em receita nos últimos 12 meses e acaba de levantar R$ 85 milhões em uma rodada Série A liderada pela Prosus Ventures.
Em conversa ao 5 Minutos com, Robson falou sobre os planos de transformar a BeConfident em uma gigante global de IA, os aprendizados de construir uma startup sem queimar caixa, a aposta em agentes conversacionais e por que acredita que o futuro da educação será cada vez mais personalizado – e menos parecido com o modelo tradicional de sala de aula.
Veja, a seguir, os melhores momentos dessa conversa.
O que diferencia a BeConfident de outras plataformas de idiomas?
A gente construiu uma camada muito profunda de dados e interação. O primeiro insight veio da percepção de que as pessoas passam o dia dividindo a atenção entre várias plataformas. Na América Latina, mais de 98% das pessoas usam o WhatsApp e abrem o aplicativo, em média, 30 vezes por dia. Mas elas não estão só ali: usam apps, browser e transitam entre diferentes ambientes o tempo todo.
A partir disso, entendemos que dava para construir uma camada agêntica integrada às plataformas que as pessoas já utilizam, acompanhando o contexto e prevendo onde elas estão ao longo do dia.
Como mais de 90% das interações na BeConfident são conversacionais, a gente coleta um volume de dados muito profundo e pessoal – e não são dados públicos. Conforme a pessoa conversa com a plataforma, ela passa a entender melhor os hábitos e preferências daquele usuário: o horário em que acorda, a forma como aprende melhor, quais plataformas prefere usar.
Com isso, a BeConfident se torna uma camada de inteligência que acompanha a rotina da pessoa. Você pode conversar pelo WhatsApp tomando café, fazer uma chamada em tempo real enquanto lava a louça ou usar o app durante um deslocamento.
Outra diferença é a capacidade de criar experiências muito contextualizadas. Dentro da plataforma, conseguimos desenvolver agentes especializados que entendem profundamente determinados contextos profissionais. Um médico, por exemplo, pode conversar com um agente focado em oncologia. A proposta não é ensinar apenas um inglês genérico.
Além disso, criamos um marketplace de digital twins. O usuário consegue aprender com versões digitais de especialistas, como Gina Gotthilf (ex-Duolingo) e Rodrigo Terron (NewHack). Hoje, já é possível conversar com eles na plataforma, com avatares construídos com IA ponta a ponta.
A ideia é que a pessoa aprenda inglês enquanto também aprende sobre mercado, medicina, mídia ou qualquer outro tema, conversando com especialistas e referências que admira.
A BeConfident ficou muito conhecida pelo WhatsApp. Esse ainda é o canal principal?
Hoje, o app é mais utilizado do que o WhatsApp. O aplicativo reúne um ecossistema mais completo de ferramentas. Além dos digital twins, temos tutoriais, aulas guiadas, rede social interna, chamadas e conversas em tempo real, além de feedbacks personalizados.
O WhatsApp, porém, continua sendo importante porque já faz parte da rotina das pessoas. Dentro dele, atuamos como uma vertical de educação. A ideia é aproveitar todos os modelos disponíveis, inclusive os da Meta
Como foi a negociação da rodada com a Prosus?
Fizemos um trabalho sólido ao longo dos últimos anos, o que nos permitiu construir uma operação global sem queimar caixa e alcançar R$ 80 milhões em receita nos últimos 12 meses. A rodada acabou sendo consequência desse processo, somada à confiança que temos na tese da BeConfident e na visão de que o avanço tecnológico mudaria padrões de consumo e comportamento.
Durante as negociações, nos apoiamos bastante em dados concretos para mostrar que nossas hipóteses tinham fundamentos sólidos e deixar claro tudo o que já havíamos construído.
Foi um processo longo, com conversas com diversos fundos e um roadshow que passou por San Francisco, Nova York e São Paulo.
A principal dificuldade foi estruturar um processo consistente e demonstrar o tamanho da oportunidade. Precisávamos mostrar evidências de que o mundo realmente estava caminhando para um formato muito alinhado ao que a BeConfident constrói, e por que o nosso time era o mais preparado para resolver esse problema.
Qual o foco da BeConfident em 2026?
O principal objetivo da rodada foi acelerar a expansão global e lançar a BeConfident no maior número possível de países. A gente já vinha crescendo forte nos Estados Unidos e na Europa, mas agora queremos avançar ainda mais no continente europeu e expandir também na Ásia. A meta é consolidar a BeConfident como uma startup global, e não apenas como uma empresa focada no Brasil ou na América Latina.
Esse movimento traz desafios importantes, porque o comportamento de consumo muda muito de um país para outro. No Brasil, por exemplo, parcelamento e Pix são fundamentais. No México, a lógica já é diferente. Na Ásia, muda ainda mais.
Isso impacta comunicação, branding, meios de pagamento, percepção de valor, cores e comportamento de compra. A forma de apresentar o produto precisa ser adaptada para cada mercado. O grande desafio é conseguir lançar em várias geografias ao mesmo tempo sem perder eficiência operacional.
Queremos encerrar o ano com cerca de 400 mil alunos e fazer com que pelo menos 70% da receita venha de fora do Brasil e da América Latina – especialmente de mercados como Estados Unidos, Reino Unido e Japão. A meta é chegar a 1 milhão de alunos pagantes até o fim de 2027.
Também estamos investindo fortemente em pesquisa. Criamos a BeConfident Labs, nosso laboratório de IA, com a contratação de PhDs e o treinamento de modelos próprios focados em aprendizado. A ideia é estar na vanguarda da IA aplicada à educação e transformar a BeConfident em uma referência global nesse segmento.
Que conselho daria para o Robson do começo da jornada?
Acho que o conselho está no próprio nome da empresa: “be confident”. Não ter medo de tentar, ir para cima e buscar as pessoas certas para aprender mais rápido.
Não vim de um lugar com muitas oportunidades. Então, me aproximar de pessoas inteligentes, dispostas a ensinar e trocar conhecimento, acelerou muito a minha trajetória. Também diria para pensar grande desde o começo. Na BeConfident, a ideia sempre foi construir um negócio global e representar o Brasil no mundo.
No fim, o máximo que pode acontecer é dar errado.
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