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Luiz Felipe Pondé durante a aula inaugural do"Filosofia da TecnologIA", no Distrito Itaqui, em Itapevi (SP). Imagem: Divulgação

O filósofo e escritor Luiz Felipe Pondé abriu, na noite de 17 de maio, a segunda turma do “Filosofia da TecnologIA”, curso de imersão da Escola de Liderança do Instituto Itaqui voltado a CEOs e executivos C-level. Durante pouco mais de uma hora, ele percorreu 2,5 mil anos de filosofia ocidental para chegar a uma conclusão incômoda para o público: a frase “na era da IA, vamos precisar ser mais humanos” não significa nada.

“O único sentido que essa frase pode ter é fazer você se sentir mais legal”, diz Pondé. “Do ponto de vista histórico e empírico, ela é vazia.”

A aula inaugural aconteceu no Distrito Itaqui, em Itapevi (SP), primeiro distrito verde de inovação do País, instalado em meio a 120 mil hectares de Mata Atlântica. O cenário, propositalmente afastado do ambiente corporativo, compõe a proposta pedagógica do programa, que combina aulas expositivas com vivências na natureza, gastronomia e debates em roda de fogueira.

Prometeu como espelho da IA

Pondé organizou a palestra em torno da tragédia Prometeu Acorrentado, de Ésquilo, texto do século V a.C. no qual o titã é punido por ter dado o segredo do fogo aos humanos. Para o filósofo, o fogo é o símbolo originário da técnica, e a IA repete o mesmo dilema que Zeus e Prometeu travaram há milênios.

“A IA é um incidente de fogo. Vamos nos bater com ela como os gregos se bateram com o fogo, e não vamos saber direito o que fazer”, afirma. “Mas se ela der dinheiro e resolver o problema, nós vamos usar. Depois vamos discutir a ética.”

O dilema tem raízes profundas na literatura. Mary Shelley não escolheu o subtítulo o Prometeu Moderno por acaso ao publicar Frankenstein, em 1818. Criada entre filósofos utilitaristas — filha de William Godwin e leitora de Jeremy Bentham e Stuart Mill —, a autora sabia exatamente o que fazia ao retomar o mito grego para questionar os limites da ciência. “O medo dela era saber até onde vai a hybris humana, essa desmedida de quem acha que pode construir pessoas”, diz Pondé.

A provocação ecoou a tese central de sua palestra: a humanidade sempre adota a tecnologia disponível e só depois elabora os freios morais. A discussão ética, portanto, chega sempre atrasada.

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Prometéico versus Órfico

A segunda metade da palestra apresentou dois modelos gregos de relação com a natureza que, segundo o filósofo, ainda estruturam os debates contemporâneos sobre tecnologia e meio ambiente.

A concepção prometéica, sistematizada por Francis Bacon no século XVII, trata a natureza como objeto a ser dominado, interrogado e dobrado às necessidades humanas. É ela que fundamenta a ciência moderna, a medicina e, por extensão, a inteligência artificial.

A concepção órfica, derivada da figura mítica de Orfeu, entende a natureza como mistério a ser contemplado, não conquistado. Pondé citou homeopatia, antroposofia e práticas indígenas como aproximações contemporâneas dessa visão, ressalvando que forçava a analogia.

Progresso tecnológico não é progresso humano

Um dos pontos de maior tensão na sala foi a distinção entre evolução técnica e evolução moral. Pondé argumenta que a modernidade comete um erro de categoria ao confundir as duas.

“Se você acha que avanço tecnológico implica avanço da humanidade, você está antes de 1914”, diz, referindo-se à Primeira Guerra Mundial como prova de que o domínio técnico não impede barbáries. “A ciência faz qualquer coisa. Ela é um método. Você pode aplicar ela no que quiser.”

O que significa “ser humano”?

O argumento final da palestra voltou à frase que abriu a noite. Pondé usou a filosofia analítica para expor o pressuposto não declarado por trás do clichê: quando se diz que a IA nos tornará “mais humanos”, assume-se que ser humano já significa desenvolver as melhores qualidades da espécie.

“Os seres humanos são, às vezes, generosos. Às vezes, mesquinhos. Às vezes, corajosos. Às vezes, covardes”, enumera. “Com a IA, nós podemos ser mais interesseiros, podemos demitir mais gente, podemos racionalizar processos. Isso também é humano.”

O raciocínio desemboca em uma conclusão que o filósofo recusa suavizar: “Não temos uma posição definitiva sobre o que é o ser humano. Esse é um dos temas mais debatidos da filosofia.” Para Pondé, exigir que a IA resolva essa questão é pedir que uma ferramenta responda a uma pergunta que a humanidade não conseguiu responder em 2,5 mil anos.

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