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Marcos Ráyol, CTO do Lance. Foto: Divulgação

A poucos meses da Copa do Mundo, um dos maiores picos de audiência do esporte global, o CTO do Lance!, Marcos Ráyol, enfrenta um desafio que vai além de escalar sistemas: preparar a operação para um ambiente em que tráfego pode triplicar em dias, algoritmos redefinem a distribuição de conteúdo e a inteligência artificial (IA) começa a alterar a própria lógica de consumo.

Na prática, a missão não é apenas garantir que a plataforma vá muito além dos 90 minutos de jogo. É reorganizar tecnologia, dados e times para responder em tempo real a um comportamento cada vez mais imprevisível, em que audiência, engajamento e monetização deixaram de seguir padrões estáveis e passaram a depender de decisões quase instantâneas.

Com mais de 20 anos de experiência em tecnologia, incluindo passagens por Globo, IBM e Oi, onde participou de iniciativas como o desenvolvimento do Globoplay, a entrada da IBM no mercado esportivo brasileiro e o lançamento da Oi TV, Ráyol chegou ao grupo há pouco mais de três meses com a missão acelerar a transformação do Lance! em uma empresa de media tech, orientada por produto, dados e performance.

Na prática, isso significa muito mais do que modernizar sistemas. Significa redesenhar como a tecnologia sustenta o negócio em tempo real. A experiência acumulada em projetos de larga escala, como coberturas de Copa do Mundo e Jogos Olímpicos, ajuda a dimensionar o desafio. “A audiência pode triplicar nesses períodos. Precisamos estar preparados”, afirma o executivo.

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Mas o contexto atual impõe uma camada adicional de complexidade. Se antes o desafio era suportar picos de tráfego, agora é operar em um ambiente em que a atenção é volátil, distribuída por plataformas e cada vez mais mediada por inteligência artificial. Nesse cenário, garantir disponibilidade é apenas o básico. O diferencial passa a ser velocidade de decisão, capacidade de adaptação e entendimento profundo do comportamento do usuário.

Olhando para o produto

Uma das primeiras decisões do executivo foi reorganizar a estrutura de tecnologia em torno de uma lógica de produto, movimento que vem se consolidando nas empresas de mídia que buscam sobreviver à lógica das plataformas. Hoje temos squads dedicados a cada produto. Não era assim antes”, afirma.

A mudança revela uma transição mais profunda. Nela, o conteúdo deixa de ser o centro isolado e passa a fazer parte de uma experiência mais ampla, desenhada a partir de dados, comportamento e jornada do usuário.

Nesse modelo, tecnologia passa, então, a ser protagonista na definição do que é o produto. E isso exige uma mudança de mentalidade nas equipes. “Tecnologia é negócio. As pessoas precisam entender como tudo funciona, não só usar ferramentas”, diz.

IA como camada estrutural

O executivo revela que, ao contrário do entusiasmo acelerado que domina parte do mercado, a adoção de inteligência artificial no Lance! segue uma lógica mais pragmática. “Não usamos IA por usar. Existe uma intenção por trás: produzir mais, com mais qualidade e mais automação”, afirma Ráyol.

Hoje, a tecnologia já está inserida em diferentes etapas da operação, como automação de processos e edição de conteúdo; identificação de tendências e apoio à produção editorial; e análise de comportamento e performance de audiência

A empresa também começa a testar estruturas em que desenvolvedores operam com apoio de agentes de IA, um modelo que antecipa a reorganização do trabalho discutida globalmente. “Conseguimos resultados relevantes em poucos meses”, afirma.

Além da produção editorial tradicional, o Lance! começa a expandir sua atuação em novos formatos. A empresa estrutura sua operação de streaming, com transmissões ao vivo e novos programas, ao mesmo tempo em que investe em experiências mais interativas para aumentar o tempo de permanência do usuário.

O objetivo é transformar audiência em engajamento. “Não é só aumentar o número de acessos. É aumentar o tempo, a interação e o envolvimento”, afirma o executivo.

Nesse cenário, ferramentas de dados e IA também passam a ser usadas para entender melhor o comportamento da audiência e ajustar a estratégia em tempo real.

O que vem pela frente

Nos próximos meses, o foco da área de tecnologia está concentrado em preparar a operação para esse pico, ao mesmo tempo em que avança em iniciativas de monetização e melhoria da jornada do usuário.

A Copa, nesse contexto, funciona como um teste de estresse completo de infraestrutura, dados, experiência e capacidade de decisão em tempo real.

Em meio a tantas frentes de atuação, executivo aponta um objetivo que parece simples, mas carrega um dos maiores desafios da tecnologia atual. “Minha visão é simplificar tudo: arquitetura, jornadas, processos. E simplificar não é fácil”, reflete.

À medida que novas camadas tecnológicas são adicionadas, aumenta também a complexidade dos sistemas. O risco é criar estruturas difíceis de escalar, adaptar e sustentar. Nesse contexto, a vantagem competitiva pode não estar em adotar mais tecnologia, mas em torná-la mais simples e rápida.

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