Skip to main content

Fachada de um edifício institucional com colunas verticais claras e grandes janelas de vidro. No centro da imagem, acima da entrada, aparece o texto ‘BANCO CENTRAL DO BRASIL’. Em primeiro plano há um jardim com plantas e flores, e à direita parte da cena é enquadrada por uma árvore com folhas iluminadas pela luz natural. O ambiente é externo e bem iluminado.

Por Fabio Noronha

Durante muitos anos, a segurança cibernética no sistema financeiro foi tratada essencialmente como um requisito de conformidade. Algo necessário, regulado e auditado, mas ainda percebido como um tema técnico, concentrado nas áreas de tecnologia e risco operacional.

Essa lógica começa a mudar. Em dezembro de 2025, o Banco Central e o Conselho Monetário Nacional atualizaram as regras de segurança cibernética aplicáveis às instituições financeiras. Segundo o próprio regulador, o objetivo é “fortalecer a segurança das infraestruturas de comunicação de dados e dos sistemas de pagamentos”, em resposta à crescente digitalização do setor e ao aumento do tráfego e da criticidade de sistemas como o Pix.

Mais do que um ajuste técnico, o movimento revela uma mudança de abordagem: o risco cibernético passa a ser tratado como risco estrutural do sistema financeiro.

Hiperconectividade e compliance

A digitalização acelerada do setor financeiro, impulsionada por pagamentos instantâneos, open finance e integrações via APIs, aumentou exponencialmente a interdependência entre instituições. Na prática, isso significa que o risco deixou de ser isolado.

Esse movimento ocorre em paralelo à escalada de fraudes no país. Em 2024, as perdas com golpes no sistema financeiro brasileiro somaram R$ 10,1 bilhões, segundo a Federação Brasileira de Bancos, um crescimento de 17% em relação ao ano anterior. No Pix, esse avanço é ainda mais visível: as fraudes cresceram 43% em dois anos. Em escala populacional, cerca de 24 milhões de brasileiros foram vítimas de golpes financeiros em 2024, com prejuízos próximos de R$ 29 bilhões, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Esse cenário evidencia que os ataques passaram a ocorrer em múltiplas frentes, sem distinção clara entre canal, produto ou ponto de entrada, explorando justamente a hiperconectividade que sustenta o sistema.

As novas regras deixam claro que o regulador enxerga vulnerabilidades não apenas dentro das instituições, mas principalmente nas conexões entre elas credenciais, APIs, integrações com a Rede do Sistema Financeiro Nacional e dependência de infraestrutura compartilhada. Esse é um ponto crítico: o maior risco hoje não está no core bancário, mas nas bordas do ecossistema.

Outro sinal relevante das novas normas é a mudança de lógica regulatória. O Banco Central deixa de priorizar apenas a existência de políticas e passa a exigir evidências concretas de segurança. Isso inclui, por exemplo, testes periódicos de intrusão conduzidos por terceiros independentes, rastreabilidade de acessos e monitoramento contínuo de vulnerabilidades.

Na prática, isso encerra um modelo ainda comum no mercado: o da segurança baseada em documentação. O que passa a importar é a capacidade real de resistir a ataques.

Essa mudança aproxima o Brasil de uma agenda global de resiliência operacional, em que segurança deixa de ser auditoria e passa a ser teste contínuo.

Leia mais: Computação quântica: Q-Day pode levar uma década, mas risco de não se preparar é real

O impacto invisível

O efeito mais profundo das novas regras não está nos controles em si, mas nas decisões de arquitetura que elas passam a exigir.

Ambientes altamente integrados, baseados em cloud e APIs, exigem modelos mais robustos de gestão de identidade, proteção de credenciais e monitoramento de acessos. Ao mesmo tempo, ampliam a dependência de terceiros — provedores de nuvem, plataformas e integradores.

As novas normas deixam claro que esse ecossistema também está sob escrutínio regulatório. Isso muda a lógica de gestão de risco: segurança deixa de ser um problema interno e passa a ser um problema de cadeia.

Há também um efeito estrutural relevante. Ao exigir testes independentes, monitoramento contínuo e controles mais rigorosos, o Banco Central eleva o custo de operar no sistema financeiro. Esse movimento tende a impactar principalmente fintechs e instituições menores, que passam a enfrentar uma barreira tecnológica mais alta.

Por outro lado, acelera a valorização de plataformas capazes de operar dentro dos padrões regulatórios desde a origem. Segurança, nesse contexto, deixa de ser apenas proteção e passa a funcionar como fator de seleção e maturidade do mercado.

Segurança como infraestrutura

O que está em jogo vai além da cibersegurança. As novas regras sinalizam que, em um sistema financeiro baseado em plataformas digitais, APIs e pagamentos instantâneos, a estabilidade do setor depende diretamente da resiliência da infraestrutura tecnológica que o sustenta.

O Banco Central não está apenas endurecendo regras. Está redefinindo o papel da tecnologia no sistema financeiro. E deixando claro que, daqui para frente, segurança não será apenas uma função de tecnologia; será parte da própria infraestrutura de confiança do mercado.

Siga oIT Forum no LinkedIn e fique por dentro de todas as notícias!

Close Menu

Wow look at this!

This is an optional, highly
customizable off canvas area.

About Salient

The Castle
Unit 345
2500 Castle Dr
Manhattan, NY

T: +216 (0)40 3629 4753
E: hello@themenectar.com