
Quando Itali Collini entrou na Potencia Ventures, em 2022, o grupo de investimentos de impacto focado em educação e futuro do trabalho ainda não tinha uma estratégia dedicada para construir pipeline de startups no Brasil. Um ano depois, ela lançou o Potencia UP. Duas edições depois, o programa está pronto para cruzar fronteiras e alcançar empreendedores da América Latina.
“A gente validou o Brasil e agora está expandindo. Vai ser a mesma estrutura de três fases, mas para todos os países da América Latina que falam espanhol”, explicou Itali ao Startups. A meta é atingir 100 startups na região já na próxima edição, com foco inicial em México e Colômbia, mercados que a gestora considera prioritários. “O México já alcançou o Brasil no volume de investimentos. Eu deveria estar olhando com mais cuidado para esse mercado”, reconhece.
Para apoiar na expansão, a Potencia contratou dois analistas nos últimos meses: um em Colômbia e outro no Equador. “Eles já têm alguns relacionamentos dentro desses mercados e vão nos ajudar a espalhar a palavra”, brinca Itali.
Da ideia ao método
O Potencia UP nasceu de uma frustração. Itali vinha de um background de aceleração e tinha chegado à conclusão de que o modelo tradicional não servia para o perfil de empreendedor que a Potencia queria apoiar. “Ao invés de eu forçar o cara a entrar nessa régua de Silicon Valley, crescendo 30% mês a mês, por que não diluo o apoio para que ele tenha tempo de operar e aprender?”, conta.
A primeira edição, em 2023, teve 170 inscrições e selecionou 20 startups direto para mentoria personalizada. Funcionou, mas Itali percebeu um problema: no final do programa, o engajamento havia caído para cerca de 14 startups dos 20 que começaram. “Eu queria medir engajamento antes de me comprometer com a fase mais personalizada.”
A solução veio na segunda edição, em 2025, com a criação de uma trilha digital desenvolvida em parceria com a Artemisia, uma das maiores aceleradoras de impacto do Brasil. O resultado foi imediato: as inscrições mais que dobraram, chegando a 375. Das candidatas, 220 foram liberadas para a trilha digital. Dessas, 160 entregaram os desafios obrigatórios — índice de engajamento que surpreendeu positivamente a equipe.
O segredo foi a combinação de grupos no WhatsApp, mentores respondendo dúvidas por áudio e um bot tutor de IA desenvolvido pela Artemisia. “As pessoas sentiam que estavam sendo ouvidas, que não estavam fazendo aquela jornada sozinhas”, explica a executiva.
O funil até o cheque
O programa funciona em três etapas sem pulo de fase. Após a trilha digital, 20 startups avançam para mentorias individuais, com dois meses e meio de sessões focadas no desafio prioritário de cada empresa. O principal gargalo identificado foi product-market fit: 11 das 20 startups da segunda edição elegeram esse como seu principal desafio. As demais trabalharam fundraising, métricas de impacto ou gestão financeira.
Na fase final, cinco são selecionadas para due diligence. A meta é investir em pelo menos duas por edição. Os cheques variam entre US$ 100 mil e US$ 500 mil. Nas últimas rodadas, os valores têm ficado entre US$ 150 mil e US$ 250 mil. O grupo tem histórico de investimento em edtechs de impacto desde 2017, quando passou a fazer aportes diretos além dos fundos de VC.
Um instrumento financeiro novo
Além da expansão geográfica, a Potenciaestá testando uma nova estrutura de investimento para lidar com uma realidade frequente no setor de educação: empresas que sobrevivem e geram receita, mas não escalam na velocidade que o venture capital tradicional exige.
O instrumento se chama Rapid Share Agreement. Funciona assim: o aporte entra como capital, e se a empresa captar uma nova rodada, o valor converte em participação. Mas se a startup não crescer rápido o suficiente para atrair outro investidor, e ainda assim se mantiver saudável, ela começa a devolver o capital com 3% da receita total, a partir do quarto ano após o aporte, sem pressão nos três primeiros. “Isso me protege do cenário intermediário: a empresa atingiu sustentabilidade financeira, mas não acha exit porque não está grande o suficiente”, explica Itali.
O modelo já foi testado com uma empresa da Colômbia. A aposta é que ele seja especialmente útil num setor com ciclos longos, onde fechar um contrato com o governo pode levar dois anos, e onde o múltiplo de receita chega a 3x ou 4x, contra os 7x a 10x de fintechs. “Por que o gestor vai alocar dinheiro em educação? Geralmente, os que continuam investindo têm conexão pessoal com o setor”, explica a executiva. Para ela, a Potencia existe exatamente para ser esse investidor: com paciência e propósito.
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