
A Qualcomm quer ocupar um espaço central na digitalização de indústrias, varejo, agronegócio e infraestrutura urbana no Brasil e apresentou, nesta terça-feira (5), um conjunto de produtos para sustentar essa ambição. O palco foi o Qualcomm Innovation Summit Brazil 2026, realizado no Golden Hall do World Trade Center, em São Paulo.
O produto mais concreto do evento foi o Qualcomm Insight Platform (QIP), sistema de monitoramento e vigilância baseado em inteligência artificial (IA) que a empresa posiciona como solução para indústrias, empresas, escritórios e órgãos governamentais. A plataforma opera com câmeras capazes de identificar padrões faciais, vestimentas e comportamentos em tempo real, conduzindo análises de forma agêntica, ou seja, tomando decisões automatizadas com base em parâmetros previamente configurados.
Nakul Duggal, EVP e gerente de automotive, industrial, embedded IoT e robotics da Qualcomm, apresentou o QIP como resposta a problemas concretos do mundo real, com ênfase na facilidade de adoção por empresas de diferentes portes.
Câmeras que já existem, inteligência que falta
Luiz Tonisi, presidente da Qualcomm para a América Latina, foi direto ao ponto durante a coletiva de imprensa. No e-commerce, explicou, o varejista tem acesso a tudo: quantas vezes um produto foi visto, se o carrinho foi abandonado, com o que foi comparado. Na loja física, esse dado simplesmente não existe.
“Entrei numa loja. O varejista não sabe quantas pessoas entraram, qual foi a experiência ao longo da loja, qual produto o cliente pegou”, disse Tonisi. O QIP, segundo ele, é a ponte entre esses dois mundos: câmeras já instaladas nos estabelecimentos são integradas à plataforma e passam a gerar dados estruturados sobre o comportamento do consumidor.
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A mesma lógica se aplica a frotas de transporte, mineração, construção civil e agronegócio. Tonisi citou o exemplo de ônibus urbanos equipados com câmeras sem nenhuma inteligência embarcada. Com Edge Computing acoplado, seria possível identificar responsabilidades em acidentes, monitorar anomalias e registrar infrações em tempo real, tudo processado localmente, sem depender de conectividade com a nuvem.
Telecomunicações: roteador como hub inteligente
No segmento de telecomunicações, a Qualcomm apresentou um portfólio centrado na ideia de transferir o processamento de IA da nuvem para os próprios dispositivos. O Dragonwing Service Defined Wi-Fi, alimentado pelas plataformas Wi-Fi 7 e Wi-Fi 8 da linha Dragonwing Networking, otimiza o tráfego de rede de forma autônoma, priorizando aplicações sensíveis à latência como jogos, videoconferências e realidade estendida, mesmo em ambientes congestionados.
Complementa o portfólio o Dragonwing Traffic Sense AI, que identifica classes de tráfego em tempo real para garantir baixa latência em jogos e maior largura de banda para streaming. A computação de borda integrada às plataformas de rede permite ainda inferência de IA no dispositivo, viabilizando aplicações de sensoriamento, interação por voz e consciência contextual. Um assistente virtual no roteador permite gerenciar a rede por comandos de voz, com todo o processamento ocorrendo localmente.
“Estamos entrando em uma nova era de conectividade, onde a inteligência artificial não está mais centralizada na nuvem e passa a residir na borda, nos dispositivos que usamos diariamente”, afirma Silmar Pereira, chefe de marketing de produto para a América Latina da Qualcomm. “Com esse portfólio, estamos capacitando as operadoras no Brasil a oferecer serviços mais robustos, seguros e personalizados.”
Para o mercado corporativo, a Qualcomm destacou ainda o acelerador Cloud AI 100 Ultra, voltado a data centers e projetado para alto desempenho com baixo consumo energético. A área foi reforçada pela recente aquisição da Alphawave Semi, especialista em conectividade óptica. Tonisi adiantou que a estratégia completa para data centers será revelada em junho.
Ecossistema local e formação de desenvolvedores
A Qualcomm anunciou duas parcerias voltadas à capacitação técnica: uma com o SENAI SP, por meio da Academia Arduino, para formar desenvolvedores em Edge Computing; e outra com a Bosch, com objetivo semelhante de acelerar a criação de aplicações baseadas nas plataformas da empresa.
Para Tonisi, o movimento é estratégico e vai além de ampliar o canal de vendas. A comunidade Arduino, lembrou ele, tem 35 milhões de pessoas no mundo. “O objetivo é fomentar um ecossistema de expansão de casos de uso e de negócios em torno do Edge”, disse.
O executivo foi categórico sobre a necessidade de o Brasil deixar de ser apenas consumidor de tecnologia importada. “Não existe nenhum país desenvolvido no mundo que não cria tecnologia. Só tropicalizar o que vem de fora não vai levar o Brasil onde a gente gostaria.”
Entre o consumo e o B2B
Tonisi reconheceu que a Qualcomm não lidera o mercado de computadores pessoais com a linha Snapdragon X Elite, mas sustentou que a empresa tem vantagens estruturais para disputar a corrida de digitalização e IA. A arquitetura com 45 TOPS de processamento de IA e a eficiência energética superior à dos concorrentes são os trunfos citados, junto ao desempenho estável mesmo com a bateria desconectada. Dois modelos com esse processador devem chegar ao varejo brasileiro em breve, sem que os nomes das marcas parceiras tenham sido revelados.
“Não vamos ser líderes amanhã, talvez não depois de amanhã também, mas nós temos a tecnologia e os fundamentos para vencer a corrida”, afirmou.
O evento encerrou com simuladores de Fórmula 1, Stock Car e Porsche Cup para os Snapdragon Insiders. O espaço lúdico sintetiza bem a tensão que atravessa a estratégia da empresa: o consumo ainda responde por metade da receita, mas Tonisi deixou claro que o futuro que a Qualcomm está construindo é industrial.
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