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Imagem: PlayP Brasil, Ana Flávia

A apresentação de Anna Flavia Ribeiro no IT Forum Trancoso 2026 começou com um aviso: seria densa. Sem facilitações, sem economizar complexidade. “O melhor tributo que posso dar à inteligência de vocês é acreditar que essa conversa vai ser difícil, dura, cheia de termos complexos. E vocês vão querer mais”, disse a filósofa e diretora de pós-graduação da SP Tech.

O ponto de partida foi o diagnóstico de que o ecossistema do CIO está perturbado. Ana Flávia identificou três vetores dessa perturbação: o colapso dos frameworks técnicos, a pressão regulatória com ambiguidade conceitual e a erosão da autoridade técnica. Sobre o primeiro, foi direta: Agile, DevOps e transformação digital não respondem mais às perguntas que a IA coloca. “A pergunta ‘o que fazemos com isso?’ não tem resposta técnica. Framework intacto diante da IA é sinal de que não se está olhando para o problema real”, afirmou.

Sobre a erosão da autoridade, recusou a leitura catastrofista. O CIO não perdeu autoridade, mas uma versão mais frágil dela. O que vem agora precisa ser mais robusto. E o diferencial, segundo a filósofa, já não é a competência técnica, mas a capacidade de julgamento e absorção de possibilidades. “O CIO deixou de ser o mais competente tecnicamente na sala.”

A discussão regulatória recebeu tratamento incomum. Para Anna, as questões que o AI Act europeu, o debate brasileiro e a Lei Felca colocam sobre autonomia, responsabilidade e agência são, na essência, questões filosóficas disfarçadas de jurídicas. “Quem entende o problema antes do regulador prevê alternativas”, disse, assicando uma provocação ao vivo: mostrou um slide gerado pelo Claude com a afirmação de que a Europa sofre com “inovação sufocada pela burocracia” e perguntou ao público o que havia de errado. A resposta: a afirmação é de uma perspectiva norte-americana, não um fato objetivo. “Alguns LLMs refletem o modo norte-americano de pensar e estar no mundo. Pensamento crítico é não tomar essas verdades como verdades absolutas.”

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A IA não é o futuro. É o espelho do passado

O centro da palestra foi a tese sobre o que acontece quando uma organização implementa IA sem entender sua fragmentação interna. A filósofa argumentou que toda implementação carrega uma suposição: a de que a empresa está entregando ao sistema o melhor de si. Não está. Está entregando o registro do que de fato aconteceu: decisões tomadas sob pressão, prioridades reveladas na prática, padrões que se repetiram porque ninguém os interrompeu. “A IA não julga. Não filtra. Só aprende.”

A partir daí o conceito que ela chamou de congelamento da corporação. Quando os dois tempos, o de replicar o que foi e o de construir o que ainda não existe, não são gerenciados conscientemente, a IA não transforma a organização. Ela a congela. “Congela os vieses, as hierarquias invisíveis, as perguntas e tudo isso com escala, velocidade e aparência de objetividade.” A IA, concluiu Ana Flávia, não é o futuro. É o fiel reflexo do passado da empresa.

A saída proposta não é técnica. É filosófica. Ela definiu filosofia como um conjunto de crenças racionais que justifiquem as grandes escolhas e deem lastro para as decisões. “Se você não escolhe sua filosofia, alguém escolhe por você”, disse, recuperando o mote central da apresentação. A pergunta que deixou ao público: quando a IA tentar aprender com você, o que vai encontrar? Um ecossistema cheio de perguntas e dissonâncias ou um agregado de respostas prévias bem calibradas? “Se for a opção dois, vai dar ruim.”

A especialista também atacou o argumento mais usado para justificar decisões éticas dúbias no setor. “A expressão ‘se eu não fizer, outro fará’ não é ética. É uma maneira de se desculpar perante a si mesmo porque você não está convicto das filosofias que te regem”, afirmou.

A ética aplicada à IA, segundo ela, não é questão de viés algorítmico. É questão de responsabilidade moral distribuída entre arquitetura técnica, dado, modelo, plataforma e decisão humana, um arranjo para o qual as estruturas éticas tradicionais, pensadas para sujeitos identificáveis, ainda não têm resposta.

Ao encerrar, a filósofa citou Voltaire: “A incerteza é uma posição desconfortável. Mas a certeza é uma posição absurda.” Para ela, nomear o problema já é metade do trabalho. Com nome, a ansiedade vira dado. E dado, como lembrou ao público de CIOs, é algo que eles sabem tratar.

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