
*Por Renata Petrovic, head de inovação do Bradesco
Nos últimos anos, acompanhei de perto o ecossistema de startups atravessar ciclos intensos de capital, crescimento acelerado e uma narrativa quase permanente de crescimento. Em muitos momentos, parecia que a principal métrica de sucesso era simplesmente levantar a próxima rodada de investimento. Foi por isso que, durante o SXSW, fui positivamente impactada com o painel “O panorama das startups e as principais tendências a observar”.
A palestra foi conduzida por Ashley Neville, diretora de insight da plataforma Carta, que monitora investimentos e dados operacionais de cerca de 50 mil startups e milhares de fundos de venture capital. O resultado foi um retrato de como o ecossistema vem se reorganizando.
Inicialmente, me chamou a atenção o peso que a inteligência artificial passou a ter no ciclo atual de inovação. Hoje, cerca de 44% do capital investido nas startups analisadas pela plataforma está direcionado a empresas que incorporam IA em seus produtos ou modelos de negócio.
Mais do que um setor específico, a IA está se tornando uma camada transversal de inovação, presente em praticamente todas as indústrias. Esse movimento também impulsiona o crescimento das chamadas deep techs, especialmente em áreas como inteligência artificial aplicada e hardware, que vêm atraindo valuations mais elevados e maior interesse dos fundos de venture capital.
Os dados apresentados também sugerem que grande parte das startups estão demorando mais para realizar suas primeiras contratações e operando com equipes menores nas etapas iniciais. Em rodadas seed, por exemplo, a média de tamanho das equipes fundadoras caiu de cerca de 10 para aproximadamente 6 pessoas. Uma lógica clara de “fazer mais com menos”.

Parte disso reflete um ambiente de investimento mais seletivo, mas também mostra como as novas ferramentas de IA permitem que equipes pequenas avancem na criação de produtos e na validação de mercado.
Nesse contexto, a eficiência operacional ocupa um lugar cada vez mais central. A capacidade de levantar capital agora dá lugar a uma lógica mais equilibrada entre crescimento e sustentabilidade do negócio. Esse movimento reflete a retomada do chamado “bootstrapping”, em que startups priorizam o crescimento com recursos próprios por mais tempo antes de recorrer ao capital externo.
Isso impacta diretamente na maneira como os fundadores organizam suas estratégias de captação de recursos: modelos híbridos, que combinam crescimento orgânico com captação de recursos em momentos estratégicos, estão retomando espaço nas discussões do ecossistema.
O tempo de maturação das empresas também mudou. Hoje, o intervalo médio entre a fundação de uma startup e um possível IPO gira em torno de 12 anos, o que indica que as empresas dedicam mais tempo ao desenvolvimento de seus produtos, à expansão de mercado e à consolidação do modelo de negócio antes de chegar aos mercados públicos.
Ao mesmo tempo, outras formas de liquidez, como aquisições estratégicas e transações privadas, continuam desempenhando um papel importante na dinâmica do setor.
No geral, esses movimentos indicam que o ecossistema de startups está entrando em uma fase de maturidade, em que eficiência e construção consistente voltam ao centro. Antigamente, o caminho talvez fosse mais linear, mas atualmente existem diversas estratégias possíveis, desde aquelas que crescem de maneira mais gradual até as que se expandem rapidamente em mercados globais.
O que antes já foi um playbook ou receita de bolo, hoje parece mais um jogo de estratégia entre crescimento e eficiência, com outras fontes de financiamento, parcerias e estratégias de saída.
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