
Enquanto boa parte do mercado acelera os passos para adicionar inteligência artificial (IA) ao portfólio em uma espécie de corrida coletiva por relevância, a Vex.IA decidiu seguir um caminho diferente. A empresa optou por usar a própria onda da inteligência artificial para promover uma transformação interna profunda, que inclui operação, cultura, estrutura comercial e a própria estratégia.
A movimentação começou depois da aquisição da companhia, em 2024, por Francisco Ricardo Blagevitch, William Lopes e Sami Arapi– atualmente, Blagevitch e Lopes permanecem na sociedade. A empresa, que já somava 27 anos de história no mercado de consultoria, Business Process Outsourcing (BPO) e tecnologia, vinha de um cenário financeiro delicado. Segundo os executivos, a companhia havia registrado prejuízo de R$ 5 milhões em 2022 e de R$ 9 milhões em 2023.
Mais do que simplesmente reorganizar números, a nova estrutura societária entendeu que precisava redesenhar a empresa quase por completo. E isso incluía desde missão, visão e posicionamento até portfólio, cultura de liderança, relação com clientes e modelo operacional.
“Uma empresa com mais de 20 anos tem uma história, um DNA, uma alma. Mas nós nos perguntamos: isso ainda representa a companhia para os próximos anos? E a resposta foi não”, resume Francisco Ricardo Blagevitch, CEO e sócio da Vex.IA, durante entrevista ao IT Forum.
A partir daí, a Vex.IA iniciou um processo intenso de transformação interna. Os executivos reuniram os 25 principais líderes da empresa em uma série de imersões para redefinir propósito, diferenciais, missão e visão da companhia. Em paralelo, revisaram contratos, estrutura comercial, portfólio e operação financeira.
Mas um dos movimentos mais emblemáticos foi a decisão de comprar uma empresa especializada em inteligência artificial para acelerar a transformação da companhia.
“Quando olhamos para dentro de casa, vimos que ainda tínhamos poucos talentos profundamente especializados em IA. A resposta madura foi comprar uma empresa de IA”, conta Blagevitch.
De Vexia para Vex.IA
A mudança de nome para Vex.IA também faz parte dessa estratégia de reposicionamento. Embora os próprios executivos reconheçam que a inteligência artificial tende, no futuro, a se tornar transparente, quase como eletricidade ou internet, eles defendem que o objetivo da mudança não é apenas surfar o hype do mercado. Segundo William Lopes, COO e sócio da companhia, a alteração foi uma forma de sinalizar ao mercado uma mudança estrutural da empresa. “A Vex.IA era muito associada a consultoria e BPO. Queríamos deixar claro nosso posicionamento como empresa de tecnologia”, afirmou.
Ao mesmo tempo, os executivos reconhecem um movimento crescente de “AI washing”, empresas que adicionam IA ao discurso sem, necessariamente, terem profundidade real no tema.
Por isso, a companhia passou a investir fortemente em governança, formação executiva e estruturação técnica. Um dos marcos desse movimento foi a obtenção da ISO/IEC 42001, considerada a primeira norma internacional voltada para sistemas de gestão de inteligência artificial.
“Somos uma das primeiras empresas do Brasil certificadas na ISO 42001. Não queremos vender IA por vender IA. Queremos saber onde ela realmente resolve problemas e onde ela não resolve”, afirma Lopes.
Desafio da IA é gerar valor
Ao longo da conversa, um tema apareceu repetidamente: o fracasso de muitos projetos de IA nas empresas. Para os executivos, o mercado vive hoje uma fase marcada muito mais por ansiedade e pressão competitiva do que por maturidade.
Blagevitch cita estudos da McKinsey e do Boston Consulting Group (BCG) segundo os quais 78% das empresas já adotaram IA, mas apenas 5% teriam obtido retorno concreto. “Há muita falha. Muitas empresas mergulham na IA porque o concorrente está fazendo. E isso está gerando perdas financeiras homéricas”, afirma ele.
A crítica vai além da tecnologia em si. Para eles, muitas empresas ainda tentam implementar IA sem revisar processos, sem governança, sem preparo humano e sem clareza de retorno sobre o investimento (ROI).
Foi justamente daí que surgiu um dos conceitos centrais da nova estratégia da companhia: IA + IH + IE. Na prática, a fórmula combina inteligência artificial, inteligência humana e inteligência emocional. “A IA sozinha vira commodity. O diferencial está em unir tecnologia com pessoas preparadas e inteligência emocional para conduzir transformação”, indica Blagevitch.
A empresa passou então a investir em programas internos de letramento em IA, MBAs para executivos, hackathons corporativos e treinamento contínuo das lideranças. Segundo os executivos, mais de 50 colaboradores já passaram por iniciativas estruturadas de formação em IA.
“Service as Software”
Outro conceito defendido pela companhia é o de “Service as Software”, uma leitura de que a IA começa a mudar não apenas ferramentas, mas a própria lógica operacional dos serviços. “Antes, comprava-se um software para ajudar pessoas a executar tarefas. Agora, contrata-se um software para entregar o serviço por você”, explica Blagevitch.
Ainda assim, os executivos reforçam que acreditam em um modelo híbrido, no qual humanos continuam exercendo papel central na supervisão e tomada de decisão. “Você não vai ser substituído pela IA. Vai ser substituído por alguém que saiba usar IA”, afirma o executivo. A fala reflete uma visão pragmática da empresa sobre o momento atual do mercado: menos discurso futurista e mais foco em adaptação rápida.
Mudança, crescimento e aquisições
Internamente, a transformação da Vex.IA já começou a gerar efeitos financeiros. Segundo Lopes, a empresa voltou a operar com resultados positivos e passou a registrar margens de dois dígitos após a reestruturação conduzida ao longo de 2024 e 2025.
Agora, a estratégia passa também por crescimento inorgânico. A companhia afirma analisar mais de dez empresas para aquisição, em linha com uma lógica de ecossistema capaz de ampliar as capacidades da plataforma Vex.IA. “A ideia é criar um grupo econômico robusto, com empresas que se complementem e gerem mais valor para os clientes”, explica Lopes.
A recém-adquirida Wispi, especializada em inteligência artificial, permanece operando de forma independente justamente para manter velocidade, flexibilidade e capacidade de experimentação. “Não colocamos a Wispi na Vex.IA, justamente para termos liberdade de ousar, criar, contratar e ajudar a modernizar todo o portfólio da companhia”, aponta Blagevitch.
Em busca do “porto seguro”
Blagevitch lembra que o mercado corporativo vive hoje uma mistura de pressão, ansiedade e desconhecimento em relação à IA. Os executivos relatam que muitos clientes chegam sem clareza sobre como implementar IA, como medir ROI ou até mesmo quais problemas realmente devem ser atacados.
“Existe uma carência gigantesca do mercado por soluções robustas. O cliente quer um porto seguro”, afirmou Blagevitch. Nesse cenário, a Vex.IA quer construir um posicionamento menos baseado em promessas futuristas e mais em execução operacional, governança e transformação prática.
“Tem muito gênio tecnológico. Mas falta soft skill, falta humildade, falta inteligência emocional. Nosso sonho é implementar IA mais inteligência humana mais inteligência emocional”, conclui Blagevitch.
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